estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim, quero dizer que estás bonita. 

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio de ouro. 

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como se tocasse a pele do teu pescoço. 

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. 

estás tão bonita hoje. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

estás dentro de algo que está dentro de todas as coisas, a minha voz nomeia-te para descrever a beleza. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, estás tão bonita é aquilo que quero dizer.


poema de José Luís Peixoto, em “A Casa, a Escuridão”, publicado com autorização do autor

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